quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

no fim do verão


 no fim do verão as crianças voltam

correm no molhe correm ao vento

tive medo que não voltassem


porque as crianças as vezes

não regressam


não se sabe bem porquê

mas elas tambèm morrem


elas  frutos solares

romãs laranjas  dióspiros

sumarentas no outono


a que vive dentro de mim

tambèm voltou

continua  a correr nos meus

dias


sinto   os seus pequenos olhos

a brilhar como pregos cromados


sinto os seus dedos a cantar com

a chuva


a criança  voltou corre no vento

livres e aniquilados


 agora  deslizo como tudo è  suavemente

desesperante  e sem remédio


là em baixo  pescadores anónimos

de noites sem fim


esperam talvez por um tempo

impossível em que os peixes

 todos do mundo


cobertos de lodo e ânsia

como os poetas


saltarão dos seus aquários

enfim livres  da sua prisão


enfim livres e aniquilados


simplicidade


 

tanta coisa quotidiana  tão simples

e transparente

como este pequeno coração

palpitante de  ilusão


despido  ainda de todos os véus

por certo nada encontrarei tão belo

como esta hora tu e eu


mas sigamos nossos imprevisíveis

caminhos aqui um momento  cruzados


e  quem sabe  ?

momento


 

pudesse  eu parar este momento

eternizar este segundo que

jamais voltará ...


ah  ....  tivesse eu parado o tempo

quando o adolescente que eu era


tambèm  sentiu o seu coração

descuidado  arfar de felicidade


tivesse o pequeníssimo peixe

saltado do seu aquário 

velozmente


 

vou  firme nas rédeas deslizo

veloz mente


tanta luta tanta coisa mesquinha

tanta baixeza e desespero tanto ...


que as vezes o peixe salta

do seu aquário

e tanta coisa simples

como este amor que

sinto por ti 

plenamente desperto


 


voemos  sobre a terra     voemos sobre  tanta

grandeza malograda   

voemos na brisa  deste momento


a meu lado voa minha sombra companheira

 inseparável e silenciosa das alegrias e  

angústias quotidianas



là em baixo o rio e os barcos os peixes

e os que a linha julga poder liberta - los


adeus meu amor !

      adeus !|

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

carregando nus o barco da aurora


 

voltaremos  meu amor carregando nuvens

na aurora


corremos na relva na areia

no orvalho


seremos a estrada

a poeira o girassol

a seara o horizonte


a linguagem surda

dos peixes


crianças deslumbradas

despenteando à beira rio os cabelos

do sol


viajando no  silêncio abrindo águas

e em nòs confundindo  face e imagem

flor e fruto


crianças  nuas

                      meu amor

carregando  nus 

                     nos braços

nos ombros os barcos da aurora