quinta-feira, 17 de novembro de 2016

MEUS MOLEQUES AMIGOS , MEU BOM NEGRO JOÃO PEQUENO

 Meus moleques amigos ,
meu bom negro João Pequeno
que eu um dia , fingindo de
padre te baptizei , com opias
de lençol e com o sal que pus
na tua boca alegre e franca , meu
bom negro , que querias vir comigo
a Lisboa !

Minha historia do meu país
que bateu paragens inóspitas
meu pai que te concebeu , minha
cidade , adolescente , ainda ,
histórias do Sertão com venenos
feitiços , mortes e revoltas ;

meu pai , que te partiu infante
de uma aldeola perdida da metrópole
e se embrenhou no mistério tenebroso
que era África de então ;

e tu minha cidade , ainda adolescente ,
lânguida-mente recostada no planalto
recostada verde e vermelho , deixavas-te ,

como   uma crioula  nua , , possuir ao sol
pelo o branco ,

que teu ventre fecundo tinha ânsia de ficar
gravido do do meu génio imortal !

minha cidade maravilhosa , tão longínqua
e tão presente . minha cidade do Sul , à beira
- mar , com Alto Maè e a Maxaquene , Baixa
e a Polana ; meu porto acostável , com grandes
 cais parara todo o mundo ;





Ò MINHAS MATINÈS CHEIAS DE ALVOROÇO INFANTIL

Ò minha noite maravilhosa ,
que vinhas e de despias e metias
comigo na cama , e eras uma negra
cheia de mistérios  : e não tinha medo
nenhum , era tudo tão extrordinàrio mas
natural :

agasalhava em meu corpo de menino

e os sonhos que eu tinha
eram cheios de claridade
sùbito , às vezes acordava
 aos ecos , là de fora , de
medonhas trovoadas , de
chuva e vento assarapantando
a minha casa que estremecia ,
e as árvores e os pássaros que
gritavam .

Mas tu , boa negra , voltavas
a acariciar - me de manso , e eu
aninhava meu corpo pequenino
entre as dunas dos teus seios
 quentes , e voltava aos meus
sonhos de claridade .

Minha boa negra , ò minha noite
tropical , como a lua là fora a
enflorar os palmares e o teu
aconchego , incessante de
 mistérios os meus sonhos de
 menino !

Ah , minha noite acolhedora
e despida , mai - los teus maravilhosos
brinquedos e as dunas macias com que
brincavas ,

do teu corpo negro , que era toda claridade !

Ah , minha negra , submissa e envolvente
que sem pecado vinhas e te despias e metias
comigo na cama , quando eu morava na Maxaquene ,

ò noite maravilhosa e pura ,
ai , que è feito do teu menino !


QUE È DO MENINO QUE EU FUI , ONDE ESTÃO OS MEUS GRITOS , OS MEUS RISOS . Ò MINHA CIDADE DO SUL

Que è do menino que eu fui ,
onde estão os meus gritos ,
os meus risos e a minha
 claridade ?

Meu cão pastor alemão
que  se chamava Jô
trago de França um

nome  tão arrevesado , dizem - me
que era um grande homem :

o meu cão , o meu melhor amigo ,
correndo ao meu lado no meio
dos montes em grande explosão
por carreiros perdidos no meio
do capim mais altos que nòs ,
meu camarada de todas as horas  ,
alegre e obediente , saltando a minha
volta - os dois em busca do mundo
 que era nosso !

Minhas largas avenidas , abertas
alcatroadas , onde os negros
corriam de patins , com árvores
em parada , sombreando os
 passeios , floridas e confortadoras ;

meu ónibus a caminho da baixa ,
com zonas baratinhas ;

minhas matinàs no Varietà , às
 quintas e domingos com amigos ,
e aventuras do Tom Mix , e as botas
carambas e colossais do Charlot , ò
matinès cheias de alvoroso infantil !

Ò minha noite maravilhosa , que vinhas
e te despias e metias comigo na cama , e
 eras uma negra de mistérios , e eu não
tinha medo nenhum , tudo era extrordinàrio
mas natural


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

INFÂNCIA

INFÂNCIA

Eu vim do Sul de Moçambique
Minha cidade longínqua , mas
aqui tão nítida e presente , Indica
Tropical , ò minha cidade do Sul !

Minha cidade natal a beira - mar ,
com avenidas e palmares , eu
vejo o vulto opulento do teu corpo


esconder - se , vivo e sensual ,
sobre o planalto verde e vermelho ,
e a espreguiçar - se ao sol inflamado
como uma crioula nua .

Minha casa de tijolo e cimento
coberta de telhas , pintadas
com um jardim a volta , sempre
 em flor , e uma mangueira
enorme e árvores de papaia ,
minha casa de menino !

Ò minha cidade longínqua ,
mas aqui nítida e presente ,
minha cidade do Sul , que do
 bibe às flores , costurada por
minha mãe , que tão bem me ficava ?
que è dos meus brinquedos ? que è
das minhas paisagens ? ò minha cidade
do Sul !



MÃE TERRA

MÃE TERRA

Vai poesia ,
não me pertences mais ,
fecunda livre poesia ,

crescendo estão os seios
suavíssimas , inchando


de puríssimo leite , brotarão
searas , as palavras de todas
as línguas confundindo - se ,

as proa dos navios engraldei
de pássaros e flores de maio ,
de sexo viris e luminosos
olhos as floresci .

bom dia , minha amada ,
e manos de todos os países !



CANÇÃO DOS MENINOS

CANÇÃO DOS MENINOS

Rompe galopeia abate vibra
picaretas de aço estão vibrando
e eu estou soltando a voz universal

mulher abri teus làbios
te darei as palavras

os meninos estão - me coroando
de flores campestres e de serpentinas
coloridas

e entendem a minha palavra e brincam
comigo as mulheres estão concebendo
e eu me orgulho pleno agora o cântico
dolorido dos escravos

e o tilintar das correntes vem do fundo
dos tempos e me comove eu ergo um
cântico  cheio de redenção as picaretas

estão rompendo uma nova estrada as
charruas estão cantando na madrugada
clara

eu estou semeando e os meus versos
são pássaros e asas   e hélice na luz
das estrelas eu leio os meus versos

o clamor dos escravos me comove
meu coração está transbordando

pegai na minha voz ò ventos !
pegai na minha voz ò tempestade !
soprai levai os meus versos

dai - lhe a grandeza dos fenómenos
 necessários dissolvei - vos meus
versos nas chuvas benéficas correi
nos rios caudalosos e nos rios tranquilos

sede as ondas  e o sal as marés os peixes
inumeráveis do hospitaleiro mar

nascei borbulhai na boca do povo falai a
linguagem fraterna dos companheiros unidos
cantai ao sol esplêndido da manhã nossa enchei
os canais e as sebes de música  suavíssima voai

milhões de pássaros voai meus pássaros plenamente
livres floresci meus versos e estação propícia e as
mulheres e homens louras e morenas estão apodrecendo
na planície e fertilizando - a os meninos me estão coroando
de flores campestres   e serpentinas coloridas

entendem o sentido das minhas palavras
eu lhes falo suavemente

mas a minha lìngua è ainda retórica ou
eu a queimarei eu me despirei hoje mesmo

tu  minha amada  chicoteia - me !
cuspe na minha face !
se me achares indigno  de falar os meninos !






CANÇÃO DOS MENINOS

CANÇÃO DOS MENINOS

O vibrar das picaretas de aço
batendo a montanha e o grito
de posse dos companheiros
eu glorifico todos os homens ,
mulheres e todas as coisas
concretas e abstractas tudo

è existente e palpitante
a terra a charrua e as
leivas a mão que semeia
o ventre claro das mulheres
as esperança as lágrimas
os sofrimentos o sangue
os gritos dos escravos a
aventura a dor dos que
 foram vencidos a carne
horrivelmente despedaçados
na batalha agora apodrecendo

as flores e os bichos e as estrelas
os penedos estáticos desde o dia
anterior e os rios os navios nos mares

O S.O.S. dos navios na hora do naufrágio
O S.O.S. varando de angústia  a largura
dos homens

eu trago a mensagem nova minha palavra
è fraterna todos os homens e todas as mulheres
todas as coisas estão comigo

rompe galopeia bate vibra picareta de aço
as picaretas de aço estão vibrando

e eu estou soltando
a voz universal

homens e mulheres abri os vossos lábios
eu vos direi as palavras