quinta-feira, 17 de novembro de 2016

SATURNO

SATURNO

Sublime noite
no teu olhar
brilhante !

Meigo dos meus
e no teu olhar

a alegria profunda
do teu sorriso

com a profundeza de quem
ama no teu sublime olhar
na imensidão nocturna
de um Saturno !



INTERROGAÇÃO

INTERROGAÇÃO

Neste  tormento inútil , neste empenho
de tornar em silêncio o que em mim canta ,
sobem - me rouco à garganta num clamor
 de loucura que contenho .

Ò alma do Douro sacrossanta  , irmã
da alma rùtila que eu tenho , disse
para onde eu vou ,  donde è que eu
venho nesta dor que me exalta e me
levanta !

Visões de mundos novos de infinitos ,
cadências de soluços e de gritos ,
 fogueira a esbrasear  que me
consome !

Dizes que não è esta que me arrasta ?
Nódoas de sangue que palpita e alerta ...

Dizes - me de que è que tenho eu  sede e fome ?


PRIMEIRO DIA

PRIMEIRO DIA

Depois será  como se nascêssemos
de novo , trouxessem para o dia
a nossa mais funda e mais bela face .

Dia de  chuva solar em nossos cabelos
ilimitados

Erguemos os ombros cansados .
E nòs reveremos nas águas do
próprio rio que somos , inextinguível .

Pousarão as aves marinhas e terrestres
nos ombros escorrendo Sol e  limo ,
e as rãs adormecerão nos paùis onde
nos diluímos sofregamente raízes ,

E os peixes e os navios navegarão
em nosso sangue , na maior das
 navegações de todos os tempos .

Erecto está o nosso braço , e formidável .
Sob as nossas mãos crescerão as formas
anunciadas .

E as palavras nos brotarão dos lábios ,
e as searas e as aves do tamanho do mundo .



O CAOS

O CAOS

O  caos chegará com a noite
Que será da nossa face ?
e dos nossos dedos trémulos ?

As praias estarão cheias de navios
com marujos na amurada e nos

mastros a acenar .
E haverá mulheres de cabelos longos
com meninos pela mão correndo nas
ruas .

Que mares ? que céus ? que terras
haverá ainda por descobrir ?

Que noite ? que fim de noite será essa ?

Noite
de torrentes e de forças
desencadeadas .

As mãos gesticularão iradas ,
e , entre montanhas de cadáveres insepultos ,

derrubarão as paredes
de novo erguidas .

Ah , noite , noite ,
eis o teu fim .


Estaremos surdos ,
fechado o coração .

Que será da nossa face ?
e dos nossos dedos trémulos ?

Nossas mãos estarão terríveis
e implacáveis .



DESCOBERTA

DESCOBERTA

Não
não me venham com vãs
filosofias ou morais duvidosas ,
basta ! ,

deixe - me as convenções
atrás da porta :
para os que vierem simples

e nu eu estarei no átrio
e os receberei .

Eu edificarei a minha casa
( estou - a edificando )
no topo do mundo , dentro
de mim mesmo ,

e em verdade vos digo ,
vòs comigo a estais edificando

sò de ouvir - me , ainda que acheis
singular ou talvez idiota
que os versos sejam trevas , pedra ,
cimento e aço

e a vontade e os braços dos calafetes
e moços de trolha .

Ah , è preciso ter olhos penetrantes ?
Nada hà em mim
que em vòs não esteja ,
somente a descoberta ,
um por um , tereis de fazê - la .


VERSOS PARA O PRIMEIRO GALO DO POVOADO

Versos para o primeiro galo
do povoado

Quando o meu clarim soar
sairão os caminhos
de treva ainda fechados :

sairão para os caminhos

em busca das alcateias
ao nosso povo descidas
trazendo os uivos da morte :

ao nosso povo descidas
famintas de sangue quente
os olhos como carbìnculos :

famintas de sangue quente
eis as mãos se fecharão
tenazes de aço terríveis :

eis as mãos se fecharão
ai dos ladrões do rebanho
ai dos assassinos vis :

ai dos ladrões de rebanho
ficarão pelos caminhos
as línguas verdes  pendentes :

ficarão pelos caminhos
como sinal e exemplo
da justiça deste povo :

como sinal e exemplo
às portas do povoado
para que as feras o vejam :

às portas do povoado
os meninos acenado
espigas de trigo em flor :

os meninos acenado
aves brancas e douradas
de grandes asa batendo :

aves brancas e douradas
vindas na luz da manhã
do outro lado do mundo

quando o meu clarim soar .



ALDEIA



ALDEIA

Aldeia de água fresca ,
de feno cheiroso ,
de moça morena
em cima do feno :

de pobre que para


à porta da venda
e fala do tempo ,
das desgraças e guerras ,
que vão pelo mundo :

de lama , de esterco .
de canalha  ranhosa ,
de velhas , catando - se

à soleira o Chico Talau ,
de papoila  abertas
como a Rita morena :

de costumes antigos ,
com pragas , esconjuros ,

e dos homens suando
sobre a terra amarga ,

e da trágica ausência
dos que foram em busca
do pão no Brasil :

de Chico Talau bebendo ,
do pobre que passa e conta
das desgraças e guerras que
vão pelo mundo :

e do ventre macio ,
e feno cheiroso ,
da Rita morena
em cima do feno .